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Papai Noel se esqueceu de mim

| 24/12/2014 - 00:01

Osvaldo Piccinin*
Corria o ano de 1960 e eu acabava de completar dez anos. Na minha humilde, mas rica infância na roça, tudo era sonho e minha alma de criança era a mais pura fantasia.
Acreditei em Papai Noel até os doze anos, pois meu pai sabia nos envolver e criar um clima natalino bem como nos preparar com carinho para a tão esperada data.
Eu e meus irmãos até arriscávamos pedir um presente de nossa preferência, pois entendíamos que papai Noel podia tudo e não tinha limites para nos presentear.
Eu, por exemplo, passei a vida inteira, enquanto acreditei no bom velhinho, pedindo uma bicicletinha. Ano após ano renovei meu pedido e nada! Quando perguntava ao meu pai porque o Papai Noel não trouxe o presente que eu havia solicitado, ele me dizia que era porque ele estava muito velhinho e talvez estivesse um pouco surdo; que da próxima vez eu deveria pedir com a voz mais alta.
Todos os anos, na véspera de Natal, minha mãe nos lembrava de colocar embaixo da cama o único par de sapatos que tínhamos, pois era lá que nosso presente seria colocado.
Íamos dormir bem cedo. A ansiedade nos dominava. Ao acordarmos, dávamos um salto da cama e curvávamos para enxergar o presente sobre nossos sapatos.
Meu pai extravasava alegria ao ver nossa emoção. A primeira coisa que fazíamos era rasgar rapidamente o papel de embrulho e conferir o presente. Na maioria das vezes não era aquele que havíamos encomendado, mas esta frustração durava muito pouco, pois o que queríamos mesmo era sair correndo pela colônia afora para mostrar o que tínhamos ganhado. Dependendo do presente ficávamos enciumados de emprestar aos amigos para dar uma brincadinha. Não deixávamos ninguém nem encostar!
Na colônia onde morávamos, tinha um empregado braçal chamado Antonio do Violino. Ele, sua esposa e mais oito filhos moravam numa casa muito humilde de chão batido e com o telhado caindo aos pedaços. Apesar de extrema pobreza demonstravam ser felizes. O objeto mais valioso desta casa era exatamente o violino do Antonio.
Este ficava guardado num armário a sete chaves. Quando de lá era tirado, nas noites de sábado e aos domingos, nos alegrava com canções melodiosas. O palco era o terreiro em frente a sua casa e as valsas Vienenses suas preferidas.
Toninho, seu filho caçula, era meu amiguinho. Num certo Natal, ao ganhar um caminhãozinho de brinquedo, dirigi-me até sua casa para mostra-lhe meu possante FNM e perguntar-lhe o que ele havia ganhado do Papai Noel.
Encontrei-o entre soluços e limpando o nariz e lágrimas na manga da camisa já emplastada pelo uso de uma semana sem troca, e perguntei - lhe: - porque você está chorando? E ele com a voz embargada, respondeu: - Papai Noel se esqueceu de mim.
- E quando fui perguntar para meu pai, porque ele havia se esquecido, levei um tapa na bunda e ainda me disse que Papai Noel não leva presente para filho de pobre e que eu devia agradecer a Deus por ter comida na mesa todos os dias.
Cortou - me o coração ver a angústia do meu amiguinho. Na minha santa ingenuidade até aquele momento eu achava que todo mundo fosse filho de Papai Noel. Porque não?
Prometi a ele, e cumpri por um bom tempo, que aquele meu caminhãozinho seria nosso, meu e dele, e que brincaríamos juntos puxando areia e sabugos de milho pelo terreiro afora. Até hoje não esqueço seu sorriso e sua carinha de felicidade.
E VIVA O PAPAI NOEL!
* O autor é engenheiro agrônomo, empresário e agricultor. E-mail: [email protected]
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