Cultura

Textos inéditos encontrados revelam aspecto desconhecido de Antônio Callado

| 31/01/2017 - 00:01

Textos inéditos encontrados revelam aspecto desconhecido de Antônio Callado

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Considerado por críticos como o americano Raymond L. Williams como um dos mais destacados romancistas latino-americanos do século 20, a obra de Callado permanece mais atual do que nunca.
Mais do que isso, o autor brasileiro continua surpreendendo o público com novidades. A descoberta, em arquivos britânicos, de peças de teatro escritas por Callado para serem transmitidas por rádio durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) traz à tona um uma face praticamente desconhecida do autor.
Tais peças têm o potencial de lançar uma nova luz sobre sua obra e seu período de formação intelectual no Reino Unido, país em que viveu como correspondente de guerra entre 1941 e 1947.
Peças para teatro
Antônio Callado estreou oficialmente como dramaturgo em 1951, com a peça O Fígado de Prometeu, mas ganhou notoriedade mesmo com Pedro Mico, em 1957. Ele foi um dos primeiros autores no Brasil a escrever peças de teatro para protagonistas negros.
A partir de Pedro Mico, Callado escreveu uma série de textos de teatro com personagens e temas que discutem, direta ou indiretamente, o racismo no Brasil, como Uma Rede para Iemanjá (1961), O Tesouro de Chica da Silva (1962) e A Revolta da Cachaça (1983). No entanto, a descoberta recente em arquivos britânicos revela que o autor já escrevia peças nos anos 40, algo ignorado por grande parte dos críticos e biógrafos até então.
chegA vida de Antônio Callado se confunde de forma fascinante com a história do século 20. Como jornalista, cobriu eventos como a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a criação da Organização dos Estados Americanos (OEA) em 1948, e a Guerra do Vietnã (1955-1968), essa última como enviado do Jornal do Brasil em 1968.
No início dos anos 60, escreveu uma série de reportagens, primeiro para o Correio da Manhã e depois para o Jornal do Brasil, sobre as Ligas Camponesas, colocando o tema da reforma agrária sob os holofotes da imprensa e fixando na linguagem corrente o termo “indústria da seca”utor entre 1941 e 1947, quando trabalhou como jornalista na BBC
O último romance, Memórias de AldenhamHouse (1989), é uma narrativa que liga as duas pontas da vida de Antônio Callado, ao explorar através da ficção o ambiente vivido pelo autor entre 1941 e 1947, quando foi à Inglaterra para trabalhar como jornalista.
Em entrevista para a crítica literária Ligia Chiappini, ainda no início dos anos 80, Callado revela que foi na Inglaterra, durante a guerra, que descobriu sua “paixão pelo Brasil”: “De repente, começou a bater aquela saudade do Brasil. Tão grande...”.
A saudade e a descoberta do amor pela terra natal fariam Callado percorrer o Brasil inteiro, anos mais tarde, já como renomado jornalista do Correio da Manhã.
Na comparação de entrevistas que concedeu ao longo da vida com aspectos autobiográficos explorados por Callado em seu último romance, Memórias de AldenhamHouse (1989), é possível perceber também que foi durante sua estadia na Inglaterra que o autor conheceu o trabalho dos dois escritores que teriam, a partir de então, grande influência sobre a sua escrita: o romancista britânico Graham Green (1904-1991) e o modernista irlandês James Joyce (1882-1941).
A influência de seus anos na Inglaterra foi duradoura e acompanhou Callado até o fim. Quando faleceu, em janeiro de 1997, o obituário publicado na revista Isto É foi intitulado “Um Gentleman Indignado”, referência à influência britânica, por um lado, mas também a seu engajamento político na luta contra a ditadura (1964-1985). Seu amigo Nelson Rodrigues disse certa vez, em forma de pilhéria, que Callado era “o único inglês do mundo real”.
60 e 70
Callado era um escritor profundamente comprometido com o Brasil. Sua estadia como jornalista na Inglaterra, quando jovem, o ajudou a olhar para seu próprio país por um outro ângulo. Reler, hoje, os livros de Antônio Callado é uma forma instigante de olhar para a história recente do Brasil e para sua relação com o mundo.
A obra de Callado é atual porque não perdeu a capacidade de nos surpreender, combinando o cosmopolitismo do autor com seu olhar ao mesmo tempo afiado e compassivo para o país que ele tanto amava: o Brasil.
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