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A solidão e o vazio existencial

| 29/11/2017 - 21:00

Em 1953, o psicoterapeuta Rollo May publicou uma obra memorável com o título O homem à procura de si mesmo, quando a humanidade, ainda sob os efeitos dos horrores da Segunda Guerra Mundial, estava em pessimismo profundo, debatendo Alberto Camus, para quem “a vida não tem nenhum sentido”. Tendo iniciado seus estudos em Viena, o dr. May completou seu doutorado em Nova York com louvor e buscava encontrar respostas para o vazio da vida.
Rollo May se perguntava: “Como é possível alcançar o bem-estar interior numa sociedade tão dilacerada?”. Para ele, o homem do século 20 trazia em sua essência um vazio existencial e a sensação de solidão, e asseverava que esse estado tinha a ver com o declínio da religião, mas também com as mortes, as torturas e as várias formas de agressão entre os humanos, fazendo mesmo parecer que a vida não tem sentido algum.
O dr. May anota, como dito pelo psicólogo William James, que o maior desejo do ser humano é ser amado e apreciado. Mas, nessa busca, a competição individual transforma o outro em adversário – quando não em inimigo – e bloqueia em grande parte as possibilidades de amar o próximo. Já naquela época, ele criticava o que hoje é visto como virtude nas organizações: a extremada competição, a necessidade de superar o próximo e o descarte dos menos capazes.
A sociedade moderna exalta os geniais e os de alta performance, o que é bom para a produtividade econômica. Mas a maioria da humanidade não é brilhante nem genial, senão apenas normal. Um dos desafios do mundo do trabalho no século 21 será como incorporar os fracos e os menos capazes, já que eles não poderão ser descartados nem abandonados.
Assim como a alavanca de Arquimedes de Siracusa foi o recurso que permitiu a um homem franzino de 50 quilos mover uma pedra de uma tonelada, a tecnologia e a inovação deverão propiciar que os menos capazes tenham elevado desempenho. E, quando isso ocorrer, a competição individual mudará o foco; o outro deixará de ser um inimigo a ser derrotado e o espaço do amor ao próximo crescerá, permitindo, assim, que a solidão e o vazio existencial sejam reduzidos.
Em seus estudos, Rollo May refere-se a outro notável psicólogo: o dr. Viktor Frankl, que estivera nos campos de concentração de Hitler e fizera acuradas observações a respeito do comportamento humano em situação de tortura e sofrimento. Ele próprio vítima dos horrores da guerra, perguntava-se por que os prisioneiros submetidos a terríveis dores físicas e mentais não optavam pelo suicídio.
Tendo sobrevivido e retornado a seu consultório em Viena, quando um paciente se apresentava no limite da dor, ele perguntava: “Por que não opta pelo suicídio?”. Após estudos científicos acurados, ele publicou sua obra Em busca de sentido, para dizer que mesmo aqueles prisioneiros castigados até o limite da dor se apegavam a um fio de esperança, e o faziam porque suas vidas tinham sentido. E o dr. Frankl propõe a logoterapia, isto é, a busca de sentido, de uma razão por que viver. Eis aqui um desafio para cada um de nós.
*José Pio Martins, economista, é reitor da Universidade Positivo.
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