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Bola fora? Mas quem não deu?

| 31/12/2014 - 00:01

Osvaldo Piccinin*
Conversando com um velho amigo, dias atrás, rimos muito ao relembrar das bolas foras que demos no início de nossa carreira profissional. Não que não continúo dando-as, mas pelas circunstâncias, as de outrora, eram mais romantizadas e ingênuas.
Nossas origens, orgulhosamente, são interioranas. Para ser mais exato, somos lá do “interiorzão” de São Paulo, onde falar o português correto chegava a ser pedante. Desse jeitão “nói fumo” criado!
Graças a Deus isso nunca chegou a nos envergonhar, apenas alguns constrangimentos, vez ou outra. Mas na hora de escrever a gente usava o vernáculo com precisão e acuidade.
Nessa época, o Brasil estava “bombando” em crescimento econômico e nosso primeiro emprego veio a galope. Formamos num dia e começamos a trabalhar no outro. Escolhemos entre seis propostas, aquela que mais nos convinha. Eu, por exemplo, fui trabalhar na exuberante Amazônia.
O exame médico, da nossa admissão, foi cômico. Meu amigo, que por respeito omitirei seu nome, desconhecendo a existência da venda de potes para coleta de fezes, levou o conteúdo, do intestino grosso, numa pequena caixa de fósforos, no bolso do paletó. Imaginem só a consequência!
Arroz, feijão, bife, ovo frito e alguma salada verde era nosso cotidiano, tanto no almoço, como no jantar em nossas casas. Mas na dureza se aprende gostar de tudo. Eu, por exemplo, adoro fígado de boi, dobradinha, rabada, mocotó, pés e pescoços de galinha, pratos esses, que meus filhos detestam. É a geração “c... de veludo” dando entrando em campo.
Assim que soubemos da nossa contratação, fomos comemorar num restaurante – Leão do Lido - na Avenida São João, em São Paulo. Este foi nosso primeiro jantar por conta da empresa que havia nos contratados.
Meu amigo, “pé rachado” como eu, resolveu sofisticar o pedido e pediu ao garçom um prato pelo número e não pelo nome. Sua segurança foi tamanha que nem ousei duvidar do seu pseudo e refinado paladar. Com medo de “dar com os burros n’água”, por tantas opções no cardápio, acabei pedindo o tradicional bife a cavalo, porque com este eu tinha certa intimidade e nunca errei.
Eis que chegam nossos pratos. Meu bife com o “zoiúdo” de gema mole em cima, bateu com a minha expectativa. A ele foi servido um abacaxi recheado com um creme doce, um bocadinho de arroz e pedacinhos de carne. Um horror até de se ver, imagine para se comer!
Com vergonha de pedir outro prato, apesar de muita fome, me disse que trocaria seu prato adocicado por dois ovos fritos, e emendou uma frase que nunca mais esqueci. “Cada ovo que comemos será um pinto a menos no mundo”. - Então peça logo uma dúzia, retruquei!
Seu diálogo com o garçom foi inesquecível, assim como sua cara de espanto. A pergunta inevitável foi: - é isso que pedi? - Sim senhor, é um prato típico russo. - Mas isso aqui é doce e parece mais com sobremesa!
- Sinto muito, mas foi o que o senhor pediu. Lembrando que companheiro é companheiro dividi com ele meu saboroso bife. Fomos embora felizes e satisfeitos, após salvarmos os dois pintos dos ovos que meu amigo deixou de comer. Claro, com um pouquinho de fome, afinal, com vinte e três anos come-se como um cavalo!
E VIVA AS BOLAS FORAS!
* Osvaldo Piccinin, engenheiro agrônomo, formado pela USP-Esalq, em 1973. Natural de Ibaté, é empresário e agricultor e mora em Campo Grande/MS. osvaldo.piccinin@agroamazonia.com.br
    1 COMENTÁRIO
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  • aloisio aroeira
    ótimo...Bom seria se nossas vidas só tivessem esses tipos de bola fora....hoje as " malas foras " estão nos deixando sem este pra
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