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Habitar o território como arte

| 24/07/2015 - 00:01

Tarcísio Vanderlinde
Empresas associadas à agroindústria da fronteira no Oeste do Paraná costumam receber com frequência grupos de visitantes de diversas partes do Brasil e do exterior. Estes grupos são levados a admirar o progresso pelo qual passa a região e sentem-se estimulados a aprender com a experiência que podem retirar das visitas e das conversas com as pessoas. O geógrafo humanista Yi – Fu Tuan nos alerta, que o relatório que visitantes possam fazer do lugar de visita, costumam normalmente ter um grande peso estético. “É a visão de um estranho. O estranho julga pela aparência, por algum critério formal de beleza. É preciso um esforço especial para provocar empatia em relação às vidas e valores dos habitantes” . Tuan, contudo não despreza a visão do visitante, capaz de perceber méritos e defeitos em um ambiente que passam despercebidos pelo residente. Mas mesmo que a apreciação de um estranho seja solidária e generosa, normalmente retrata um mundo alheio ao do residente nato.
É a partir da visão de um não estranho e na perseguição do equilíbrio em suas avaliações, que a presente reflexão foi construída. A percepção do espaço sobre o qual a reflexão foi elaborada entra em convergência com o pensamento do filósofo Merleau-Ponty para quem as expressões que se materializam se vinculam sempre a vida total do sujeito. “A percepção do espaço não é uma classe particular de ‘estados de consciência’ ou de atos, e suas modalidades exprimem sempre a vida total do sujeito, a energia com a qual ele tende para um futuro através de seu corpo e de seu mundo”.
Defendo a concepção de que é possível construir uma visão de território que supere a perspectiva unicamente utilitarista do mesmo. Um pensador francês pouco conhecido de nome Michel Roux, observa que habitar o território pode ser uma arte sutil, uma religião no sentido primeiro do que religa, que pede para dar sentidos aos gestos mais profanos: “A sabedoria dos primitivos, sua admiração diante da natureza, seu cuidado no uso com a terra, vem dessa maneira de decifrar o mundo, de compô-lo como um conjunto de linhas melódicas, carregadas de intensidade, das quais eles são coautores com os outros habitantes do planeta”. Defende-se que esta é uma maneira legítima para se problematizar o ambiente onde se vive. Contudo, o habitar poeticamente o território não deve ser confundido com uma atitude infantil de sobrevivência no território, mas numa postura que pode ser traduzida em indicativos estratégicos aos atores que habitam o território.
Michel Roux esclarece que “[...] habitar poeticamente, longe de constituir uma sobrevivência primitiva ou infantil, constitui um projeto que o modelador pode emprestar aos atores do território: cada um dentre nós tem mais oportunidades de se inscrever harmoniosamente nos seus territórios de dependência se puder respirar a aura, ou seja, inventar, criar laços para seu ambiente que, sobre o modo da unicidade, o colocam no coração do mundo, próximo, mas aberto ao distante”.
O tratamento dado a esta reflexão se identifica com as experiências de percepção de alguém que viveu a maior parte de sua vida num lugar. Foi o lugar onde estabeleceu suas raízes. Ao construir uma análise a partir da percepção sobre a fronteira no Oeste do Paraná, considerei a experiência já vivida por Yi-Fu Tuan, para quem “Todos os homens compartilham atitudes e perspectivas comuns, contudo a visão que cada pessoa tem do mundo é única e de nenhuma maneira é fútil”.
tarcisiovanderlinde@gmail.com
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