Cultura

María Luz Morales, uma pioneira que o mundo precisa (re)conhecer

| 10/08/2017 - 21:50

María Luz Morales, uma pioneira que o mundo precisa (re)conhecer

O ofício exercido na redação de um jornal exige muita leitura, o que pode nos auxiliar a captar o maior número de informações possíveis para, posteriormente, assimilá-las e produzir os textos que serão oferecidos aos leitores. Tenho prazer em ler rotineiramente e em escrever também, e foi justamente em uma dessas leituras cotidianas que me deparei com a história de uma mulher fascinante. Pesquisando em espanhol (há muito pouco ou quase nada publicado em português) conheci o pioneirismo de María Luz Morales e quero compartilhar sua história com os leitores da Gazeta de Toledo.
A espanhola María Luz Morales nunca se definiu como feminista, mas passou a vida lutando para ocupar o mesmo espaço que os homens. No final do século XIX não havia espaço para as mulheres desenvolverem um ofício, mas mesmo assim ela conseguiu se inserir na imprensa, atuando como jornalista.
Assim como a escritora brasileira Clarice Lispector, que no início escrevia como colunista em revistas femininas sob o pseudônimo de Helen Palmer e de Tereza Quadros, María começou sua carreira assinando uma coluna semanal sobre moda. Entretanto, a espanhola, diferentemente da brasileira, precisou utilizar um pseudônimo masculino quando em 1921 passou a escrever críticas de cinema e assiná-las como Felipe Centeno. Suas críticas eram tão bem escritas que despertaram o interesse da produtora estadunidense Paramount Pictures. Um de seus responsáveis passou a se corresponder com “o famoso crítico” e quando quis conhecê-lo ficou surpreso ao encontrar uma mulher jovem e elegante. Mesmo com a surpresa, María foi contratada pela Paramount e com a chegada do cinema sonoro, seu trabalho adquiriu maior relevância: ela não só tinha que traduzir os textos, como escrever os diálogos e adaptá-los a fonética espanhola. A nova posição rendeu mais espaço à jovem jornalista, que em 1933 passou a escrever também sobre teatro.
Três anos depois, com o advento da Guerra Civil Espanhola, o jornal em que María trabalhava, “La Vanguardia”, passou a ser controlado por um grupo franquista (denominação dada aos partidários do general ditador Francisco Franco) e por ser a única mulher na redação, a jornalista foi considerada “inofensiva” pelos censores. Por esse entendimento, ela foi nomeada dirigente do veículo de comunicação, se tornando a primeira mulher na Espanha (e uma das primeiras no mundo) a dirigir um jornal de circulação nacional. A jornalista ocupou o cargo até o final da guerra, em 1939, quando ela e seus colegas foram todos demitidos e tiveram seus passaportes confiscados sob a acusação de terem colaborado com um jornal de oposição. Após esse incidente, María Luz voltou a usar pseudônimos masculinos e a assinar suas matérias como Ariel e como Jorge Marineda.
Anos depois, em 1948, passou a colaborar como crítica teatral com o “Diario del Barcelona” e com a revista “Lecturas”. Como reconhecimento de seu trabalho, em 1956, o governo francês lhe concedeu a Ordem das Palmas Acadêmicas, e em 1963 ela recebeu do governo espanhol o Prêmio Nacional de Teatro. Antes disso, em 1958, uma de suas novelas, “O amor começa no sábado”, foi transformada em filme.
Depois da morte do general Franco, em 1978, María Luz foi reabilitada como jornalista e continuou sua atividade, agora como redatora-chefe, no jornal “Diario del Barcelona”, onde permaneceu até falecer em 1980. Seu último artigo foi publicado na véspera de sua morte, que ocorreu quando ela já estava com 91 anos. Parece que o que María Luz Morales costumava dizer se cumpriu como profecia: “deixar de escrever seria como deixar de respirar”.
Algumas de suas adaptações para crianças das obras de autores clássicos como Homero, Sófocles, Dante Alighieri, William Shakespeare, Johann von Goethe e Miguel de Cervantes continuam sendo editadas até hoje na Espanha e em outros países de língua espanhola.
Fernando Baldi Braga
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