Artigos

Espírito Santo abandonado

| 29/08/2017 - 21:00

O chuvoso dia no litoral Baiano, devidamente regado a generosos ventos frios foi propício para a redação desta coluna. Evito perder detalhes e esfriar das emoções de percurso. Era para fugir do clima paulista, mas, veio junto! Costumamos ser chamados de “pés-frios”...
No planejamento destas férias, propus irmos de carro. Afinal, era óbvio que a viagem de distância que se media em milhares de quilômetros teria aeroporto e aluguel de carro no destino. Explico para familiares que gostaria de fazer diferente. Conhecer lugares ao longo da viagem e aproveitar para fazer algumas pesquisas... Acadêmicos deveriam deixar suas atividades quando em férias, reconheço.
Ao longo dos Estados de São Paulo, Rio e Espírito Santo, rodovias sem buracos e faixas bem pintadas. Emolduram conhecidos e controversos pedágios. Esposa com planilha em punho, auxiliar em contagens e observações ao longo da rodovia. Confesso que já rendeu até litígio, quando solicitara tal apoio em viagem de núpcias.
Eu paro em posto de atendimento ao usuário, logo após o pedágio de Mimoso do Sul, Espírito Santo. Justificara para café e sanitário. Na realidade, queria um momento fora da pressão da rodovia. Tragédia de carros e caminhão, cujos ocupantes certamente teriam feito a última viagem, em face dos destroços. Permanecemos parados mais de 2 horas para o devido socorro. A chuva fina, ruído constante e suave no pára-brisa, constratava com lufadas de ar de carros que insistiam ir pelo acostamento. Não se importavam quanto à possibilidade de dificultar o salvamento nem com o risco de participar como acidentados.
-Fique à vontade! Respondera a funcionária do posto de atendimento.
Local limpo, tratamento adequado.
-Teve mortos no acidente? Perguntara, apesar do evidente resultado. A sensação humana da possibilidade, por mais remota que fosse, quanto a sobreviventes.
-Tentaram salvar. Mulher, criança e homem, morreram. Falou-me, levantando os olhos do computador, com imparcialidade forense. Desceu olhos à tela, enquanto abaixo os meus, para um gole de café. Não demonstrara emoção. Por quê? O treinamento profissional fomenta ponderação e visão profissional. Protocolos funcionam: como proceder, quais respostas dar. Contudo tragédias rodoviárias, dor de amigos e parentes, são comuns em nossa atualidade, não indignam. Nos jornais, se morrem poucos, tendem a ocupar espaços restantes em folhas internas.
A letalidade nas rodovias brasileiras se mede em média já superior a 40 mil mortos ano a ano. Não aceitemos justificativas de que está mais seguro, porque tem diminuído nos últimos anos. Afinal, a crise tirou veículos da rua. Carro parado não gera acidente! Acostumamo-nos com os mais de 23 mortos para cada cem mil habitantes, ano a ano. Solução? Chuva no molhado: Educação, para entender do intangível risco, para conhecer Física, o que é derrapagem, como ocorre, como veículos se desgovernam etc. E, principalmente, agir sob a razão do respeito à vida e não sob a emoção da velocidade.
Sigo viagem. Lembro que o risco é função do volume de tráfego, minimizado ao se oferecer novas vias, enquanto vislumbro trechos de rodovias novas em construção, entre morros laterais. Obras em descompasso com o crescimento de tráfego ou simplesmente paradas. Intermináveis faixas contínuas à minha frente, parecem hipócritas declarações. Sinto-me trouxa por ficar atrás de um caminhão enquanto todos ultrapassam. Cenário que faz o Espírito Santo representar o Brasil rodoviário. Abandonado.
No dia seguinte, vejo a candura de mãe e filha da tragédia, foto de rede social em artigo jornalístico. Policial cita que o visível pneu careca dos destroços deve ter influenciado. A cidade local, Mimoso, resguarda em seu nome, o absoluto contraponto da agressão à vida, o descompasso da trafegabilidade com a segurança.
Creso de Franco Peixoto
Mestre em Transportes
    SEJA o primeiro a comentar
  • Nome

    E-mail

    Escreva um comentário

Notícias de 'Artigos'

Jesus viu uma grande multidão e teve compaixão

Sustentabilidade e reeducação

Uma abertura comercial inteligente

Eles estão surdos

O Poder e o Povo

Aeroportos: Muito na frente de nosso tempo

Uma agenda a favor do Brasil

A ameaça do “não voto”

Contratação de refugiados pode ser vantagem competitiva para os negócios

Jesus enviou os apóstolos em missão

Mais Destaques
"Chegamos ao 15 milhões de acessos no site do Jornal Gazeta de Toledo. Aqui se propaga - 45 9.91339499"
(Eliseu Langner de Lima - diretor)
Enquete
Tempo Toledo
Cotações
Compra Venda
Dólar comer.
Euro (real)