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Desconectividade

Por: Renatha Giordani | 09/03/2018 - 20:45

Arquivo Gazeta de Toledo

As relações estão mudando, cada vez mais estamos imersos e conectados no mundo virtual. Mas será que bastam os aparelhos tecnológicos para isso?

São 10h da manhã de uma quinta-feira. O sol forte aquece o asfalto, as ruas do bairro Boqueirão se intercalam entre o chão de terra batida e o concreto. Várias casinhas de madeira estão aglomeradas, em meio a elas João Maria Moraes, 76 anos, toma sol e vigia sua casa. Há anos divide o lugar com esgoto que corre a céu aberto. Aparentemente cansado, com os cabelos grisalhos e pouca roupa para os 9 graus daquela manhã, demonstra insatisfação, desespero e melancolia. “Nós não temos nada aqui, absolutamente nada, construímos essas casinhas com madeira doada, não tem luz, nem água. Tomo banho de balde, esquento água no fogão, e quando está muito frio é mais sofrido ainda”. As filhas moram a alguns quarteirões, mas ele vive sozinho, esperando ser resgatado da marginalidade social. A casinha é pequena, distante do grande centro urbano a rua em que vive é chamada de Extensão da XV. “Somos deixados de lado, não temos condições algumas de viver aqui. Muitos tentaram a sorte em outros lugares, eu fiquei, mas ainda espero conseguir algo melhor” ele tira dos bolsos um celular antigo. “Esse celular eu quase não uso. Vejo pouca teve, mas ouço o rádio. Nós precisamos estar informados, mesmo tudo sendo muito complicado, minha aposentadoria é pouca e mal consigo por créditos no celular”.

Seu João vive resignado em seu cotidiano, com as poucas condições que tem, manter um contato, por meio dos aparelhos tecnológicos se tornou uma das prioridades, juntamente com as necessidades básicas de alimentação e higiene. Muitos estudiosos consideram a nossa época o ápice da era da informação. Seja em maior ou em menor intensidade, classe social ou cultura somos todos interligados por redes tecnológicas e sociais. A conectividade se tornou tema de debates importantes alimentando diversas vertentes da comunicação, tecnologia, sociologia e informação. Para o sociólogo alemão Sigmund Bauman, a sociedade vive hoje a chamada Modernidade Liquida, uma época de volatilidade, de incerteza e insegurança, do consumo desmedido e das relações fugazes.

Dona Olga Kuspiosz, 60 anos, tem os cabelos presos e feições gentis, morou na zona rural do município de Irati até os 18 anos de idade, junto com seus pais e outras três irmãs, trabalhou na lavoura desde os 8 anos de idade. Sua criação foi em sitio, no interior, entre todas as culturas, lembra dos moedores manuais, moinhos, e dos equipamentos que utilizavam antes da internet ser obrigação social. A vida era boa, simples. Não tinha energia elétrica, nem geladeira, a televisão era algo inimaginável. Trabalhava o dia inteiro, e a noite depois do banho, da janta e da conversa, dormia. Brinquedo não existia, a escolinha não era obrigatória, e a socialização, de fato, acontecia nos finais de semana, – enquanto fala, na televisão o jornal entre as novelas chama sua atenção – nos bailes da igreja, foi lá que ela encontrou Seu Miguel Kuspiosz e há quarenta anos atrás casaram e se mudaram para a cidade, Guarapuava, tiveram três filhos. “Morar na cidade era bem melhor, tinha energia elétrica, televisão, geladeira, tudo isso, era outra vida, bem melhor. Na cidade está cada vez melhor. A gente não vive mais sem, e naquela época nós íamos longe, puxávamos água do poço. Já o computador só conheci quando meus filhos compraram, mas eu não sei usar não, até o celular é difícil, imagina o computador, para a gente que é de outra época é tudo mais difícil”, ela fala sorrindo para seu neto mais velho, sentado no sofá ao lado.

A história de Dona Olga se assemelha a descrições de muitas pessoas mais velhas que hoje veem a internet e as redes de uma forma diferente, com receio. Para a pesquisadora em Comunicação e Cultura, Elisa Roseira, os idosos tem maiores dificuldades por questões culturais, a época em que nasceram e ao mesmo tempo a forma como viveram diferem no modo como eles interagem com a internet. No entanto, não são apenas as questões culturais que se transformam, mas também acontece a própria transformação do termo. “A conexão se dá através do “nós”, dos laços sociais, a rede social não é só virtual, ela surge muito antes da questão virtual, rede social é a conexão através das pessoas e não só através dos computadores, hoje em dia é que se fala neste aspecto tecnológico, mas rede social é familiar, clube, igreja, na sociedade em si. A rede social através dos computadores que dá essa característica de sociedade de conexão” explica a Roseira.

A tecnologia contemporaneamente nasce e potencializa a conectividade do ser humano em sociedade, pode-se compreender como a evolução das teorias da comunicação, a conectividade é um fator importante. Neste sentido, entendemos as conexões humanas além de seu status tecnológico, mas suplantado a isto, antropológico. “Nós nos conectamos enquanto sociedade”, reflete o pesquisador em Tecnologias da Comunicação, Sociedade e Linguagem, Francismar Formentão. “Existe uma instituição imaginária da sociedade, mas essa sociedade só se institui imaginariamente porque existe uma conexão, existe meios de comunicação, meios sociais, como estado, política e cultura que faz com que as pessoas estejam conectadas”. Para o pesquisador, os conceitos mudaram com o passar do tempo, hoje em dia falar de redes sociais está vinculado à, superficialmente, internet. “Essa conexão que cria diálogos entre nossos avatares é o que mais se fala, no entanto, nós já vivemos conectividades desde que começamos a existir em sociedade, o ser humano já está conectado, porque é isso que buscamos, nos conectar”.

Isso porque as conexões humanas são uma necessidade do ser. Todo mundo está conectado a tudo o tempo todo, a virtualização das relações acontecem de maneira orgânica e são tornadas naturais, até mesmo, por fins ideológicos. “Há uma tendência forte a colocar o sujeito como usuário, não só no mundo virtual, mas do mundo físico também, você não é agente transformador da sua realidade, você é usuário dessa realidade, e nas redes sociais também, há um tendência muito forte a tornar todo mundo usuário. Determinadas classes são agentes mais transformadores, e outros são mais passiveis. Essas participações são ideológicas, isso tem a ver como as pessoas serem classificadas socialmente, a estrutura de poder da sociedade se reproduz nesses meios” conclui Formentão. As redes sociais são espelhos do mundo real, onde se reflete tudo o que há nele, mas refrata de maneira deformada.

Essa reprodução, de certo ponto de vista, é uma consolidação de discursos, conforme afirmar o pesquisador em comunicação comunitária Eduardo Yamamoto, todos nós nos comunicamos o tempo todo, basta falar. “Comunicação é só falar ou é se abrir para o mundo? para e experiência pensar sobre o outro? É neste sentido que podemos fazer a reflexão sobre o outro, sobre a vinculação social, que pode se dar por elementos do passado, ancestrais comuns, comunidades ou questões mais fluidas onde os laços sociais estão mais frouxos, mas mesmo assim essa dimensão do vincula ainda está presente” para o Yamamoto, o que as tecnologias fazem é amplificar a nossa voz, e não acolher as diferenças, o vincular-se a um outro que não é próximo. “A pergunta que deveríamos nos fazer é: Será que basta os aparelhos tecnológicos para as pessoas estarem conectadas?”.

A biblioteca está repleta de pessoas presas em uma imensidão de letras palpáveis, enquanto isoladas em seus pensamentos os dedos correm rápidos pela tela do computador, como em um episódio de Black Mirror, todos conectados e sozinhos ao mesmo tempo. Uma moça levanta – com o celular na mão – e sai pela porta de vidro. Lá fora encontra algumas amigas no quiosque, todas com celular na mão, pedem um café curtindo as fotos de outras pessoas no Facebook, sentam a mesa de plástico, twittam para que os outros saibam o que estão fazendo. O grupo é miscigenado, se passam minutos sem uma troca de palavra entre elas, o Instagram está cheio de fotos das meninas, mas não há dialogo, estão conectadas e distante ao mesmo tempo.

Conexão ou vinculação? Segundo Yamamoto, vinculação se refere ao lado mais humano das próprias relações, quanto que a conexão entende-se como a utilização de aparatos tecnológicos. De formas diversas, essas tecnologias são ambíguas e depende exclusivamente de quem as utiliza e para quais finalidade as utiliza, podem ser benéficas, no entanto podem ser maléficas quando destinadas a aumentar o foço de desigualdade social no mundo, reforçar determinada identidade, no sentido de criar uma identidade totalitária, ou até que ponto essa identidade não se dissemina mundialmente.

E pensar em redes sociais técnicas, atualmente, é pensar no Facebook, criado em 2004, é a rede social mais utilizada no mundo, com cerca de 2 bilhões de usuários. E neste quesito, os três pesquisadores concordam quanto os impactos negativos da grande utilização nas relações sociais. Potencializa determinados sentimentos como narcisismo, egoísmo, são criadas fantasias sobre o que você pensa e sobre o que você quer que as pessoas pensem de você. A uma danificação das relações humanas, uma superficialidade, ao mesmo tempo que se afloram identidades nocivas. O que contribui para afirmar a ideia de Bauman quanto a Modernidade Liquida e seus perigos.

Pesquisa realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil mostra que 70% dos jovens entre 9 e 16 anos têm perfis em redes sociais e 68% usam a internet para navegar em redes sociais. Entre as crianças de 9 a 10 anos, este valor abrange 44% do total. Já entre pré-adolescentes de 11 e 12 anos, o percentual de usuários de redes sociais chega a 71%. Além de se conectar cada vez mais cedo – as crianças, em média tem acesso entre os 9 e 10 anos de idade – a uma grande preocupação com a hiperconectividade.

No meio de dados alarmantes, e de jovens que cresceram tendo como principal brinquedo vídeo games e internet, Luiz Henrique Caldas Otavios, 21 anos, nada contra a maré. Mesmo cursando Sistemas da Informação, não possui redes sociais. “Essa coisa de você se tornar disponível a toda hora, de você poder conversar com a pessoa todo tempo, tira um pouco daquela coisa humana de saudade, relacionamento mesmo, eu acredito que as relações ficam muito mais mecanizadas e eu sou busco fugir disso”, apesar de jovem Felipe vê as redes sociais como coisas banais, relembra de uma época que não chegou a viver e diz sentir saudade de como as coisas aconteciam antigamente, extrovertido e animado reclama de não gostar de ficar a todo momento conversando com as pessoas, “a gente nasce sozinho, não é mesmo? Sem nada disso”, e afirma não se sentir deslocado, tem opinião forte. “Antigamente nossos avôs se conheceram, nossas mães e nossos pais, tinham uma vida boa e não tinham essas redes sociais como é hoje em dia. Eu saio muito, eu prefiro ir em lugares do que ver da tela do computador, estou até escrevendo um livro de romance, sobre como conquistar uma mulher, nos métodos antigos, é claro. Hoje em dia se usa aparelhos para tudo, é palhaçada”, gargalha e demonstra saber o que é viver, mas fica sério quando questionado sobre o mundo atual e as mudanças tecnológicas. “Não é porque você pode trocar mensagem mais rápido, estar sempre online e presente, que isso torna sua vida melhor. Mais informação não quer dizer mais qualidade”.

No entanto Felipe tem e-mail e se comunica com as outras pessoas por meio dele, acredita estar conectado de uma maneira não tão profunda, sem precisar se envolver na superficialidade de uma rede social. “Acho que a necessidade a pessoa mesmo que cria, é psicológico, não é uma necessidade real”. O rapaz respira, pensa e prossegue explicando que sempre foi assim, mas uma vez criou o Facebook. “Criei o Facebook uma vez porque eu estava namorando uma menininha e ela me pedia para criar o Facebook, porque os amigos dela estavam cobrando que eu estivesse nas redes, ela queria colocar o status de relacionamento sério, e os amigos dela cobravam que ela estava namorando, mas não tinha trocado o status do Facebook, criei só para agradar, mas logo exclui porque não aguentava aquilo, esse tipo de tecnologia, esse tipo de comunicação nunca foram bons para mim. Até gostava do msn, era mais simples mais prático, mas no resto sempre fui assim e sempre serei” reafirma o rapaz, convicto e descontraído.

E não é só a ex-namorada de Felipe e seus amigos que vem essas necessidades exaltadas nas redes, estar sob vigilância o tempo todo é um dos males da hiperconectividade. “Na sociedade em que estamos hoje, viver sem as redes sociais é se sentir livre, porque de uma certa maneira, viver em uma rede social é viver constantemente sob vigilância, uma vigilância de si e de suas ações, como se houvesse uma exigência para que sejamos felizes, para consumirmos determinados produtos, e estejamos em determinados locais, e esses mundos das redes sociais nos obrigada a ser feliz dentro de determinados modelos” Retoma o pesquisador em Comunicação Comunitária. A felicidade é programada.

Até mesmo a forma como entendemos felicidade é alterada, é remodelada. A esfera de valores constituídas a partir do Facebook, e de outras redes sociais, traz concepções rasas do que é ser feliz, ter uma boa vida. O professor exemplifica, que é como se a esfera do Facebook fosse um sistema moral e quando as pessoas se conectam a ele estariam aceitando esse contrato, essa moralidade e estariam realizando isso nesses espaços. As formas de sociabilidade hoje, potencializam uma felicidade individual, onde o sujeito só se vincula a quem pensa igual a ele, e quando tem contato com quem pensa diferente, utiliza a situação como um reforço da própria identidade.

Em contrapartida, nem todos os aspectos das redes sociais podem ser vistos de formas negativas, estamos fadados a sua utilização. Formentão conclui que as redes sociais estão em nossos espectros da vida, são inerentes a nós, e a sociedade se adapta a eles, está na globalização das informações, é também um fenômeno capitalista, que pode sim, como já é, ser revertido para finalidades benéficas, coletivamente.

É neste sentido, otimista, da análise que Vanessa Scarmosin, 32 anos, fundadora do Brechózinho Guarapuava, que atualmente conta com 146.132 mil membros, um grupo fechado no Facebook que tem por finalidade, a troca, compra e venda de mercadorias, assim como de anúncios, recados, informativos e o que mais a população puder postar para informar uns aos outros, a rede é de grande sucesso e praticamente toda a cidade utiliza. As redes de cooperação a alguns anos vem tomado o mercado, para Vanessa, muitas vezes tem um valor mais emocional, do que financeiro, pois liga as pessoas. “Esse canal possibilitou o sucesso de muita gente que trabalha com o comercio informal, além de ser um meio onde muitas pessoas podem fazer uma grana extra com coisas que não usam mais, também é um meio de fazer amizades. Acredito que é um empurrão para aqueles que estão começando seu negócio, um canal de divulgação para aqueles que já tem seu negócio em andamento e uma boa opção para quem gosta de vender e comprar coisinhas de segunda mão” comenta Vanessa.

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