Segurança

As facções, dos conturbados pavilhões à calmaria do campo

Fernando Baldi Braga | 04/05/2018 - 20:20

As facções, dos conturbados pavilhões à calmaria do campo

Durante essa semana, a Polícia Federal deu sequência à Operação Dictum e realizou a transferência de Luan Lino de Andrade, que cumpria pena na Penitenciária Estadual de Londrina e foi levado, sob forte esquema de segurança, para a Penitenciária Federal de Catanduvas. A mudança de custódia foi necessária para separar o detento da massa carcerária e inibir a influência que sua facção exerce nos presídios paranaenses. Luan, também conhecido como ‘‘Pirlo’’, é um dos líderes do PCC no Paraná e, de acordo com as investigações, que começaram há pelo menos dois meses, ele recrutava novos integrantes para o grupo, além de ser um dos articuladores do tráfico de drogas e de armas, atividades que dão sustentação à organização.
Criminosos que estão dentro e fora das prisões tiveram suas ligações telefônicas monitoradas pela Polícia Federal ‘‘ PF ‘‘ e algumas lideranças foram identificadas, bem como as ações que planejavam. A Operação Dictum, que em latim significa limpeza, foi iniciada para ‘‘limpar’’ as áreas que a facção tenta dominar. Boa parte dos líderes da organização criminosa encontra-se na região metropolitana de Curitiba, mas em seus planos estava a expansão das atividades do grupo para cidades do interior, em especial na região oeste, devido à posição geográfica estratégica. A proximidade da fronteira com o Paraguai faz dos municípios da região, territórios interessantes para bandidos instalarem suas bases.
As recentes escutas telefônicas auxiliaram os policiais a interromper os planos do comando-geral da facção, que pretendia espalhar seus líderes pelo estado, criar células regionais e fortalecer a ação do grupo no Paraná. Contudo, a presença da facção no sistema prisional paranaense é antiga e se deve a decisões equivocadas tomadas no passado. O Primeiro Comando da Capital surgiu em uma rebelião na Casa de Custódia de Taubaté, no estado de São Paulo, ocorrida em 1993. Mas embora seu surgimento e sua atuação nos presídios fossem de conhecimento das autoridades, o governo não reconhecia publicamente sua existência, o que só veio a acontecer a partir da mega-rebelião de 2001, quando a facção liderou rebeliões simultaneamente em 29 penitenciárias paulistas. Nesse ínterim, numa tentativa desastrosa de desarticular a organização, os governantes identificaram os cinco “comandantes” que o grupo tinha na época e os separaram, enviando-os para presídios distantes de São Paulo. Dessa forma, em 1998 chegavam à Penitenciária Central do Estado, em Piraquara, três dos cinco fundadores da facção (os outros dois foram enviados para o Mato Grosso do Sul). Como sabemos hoje, a estratégia de isolamento dos líderes não só deu errado, como ajudou a nacionalizar o PCC.
Uma vez de passagem pelo estado, a facção criou raízes e com o tempo fortaleceu sua presença, expandiu sua área de atuação e passou a disputar territórios com outros grupos também presentes no Paraná. As autoridades confirmam a existência de outras facções, mas nenhuma tem o poder e a influência do Primeiro Comando, principalmente dentro das prisões. Com a terceira maior população prisional do Brasil, de acordo com o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias, ficando atrás apenas de São Paulo e Minas Gerais, o Paraná tornou-se a segunda casa do PCC e por isso a Polícia Federal demonstra preocupação com as intenções de alguns chefes da quadrilha que tentavam ser transferidos para cadeias do interior e ampliar o domínio que têm sobre outros bandidos. Ao menos 30 deles já foram identificados e tiveram solicitadas à Vara de Execuções Penais, em Curitiba, suas transferências para penitenciárias federais, que encontram-se em Catanduvas (PR), Campo Grande (MS), Porto Velho (RO) e Mossoró (RN). Essa solicitação foi confirmada pelo delegado da Polícia Federal de Cascavel, Marco Smith, que também explicou que outro motivo para isolar o comando, é evitar que o grupo pratique assaltos a bancos, ataques a prédios públicos (como Fóruns) e atentados contra agentes públicos. Tudo isso vinha sendo planejado, conforme demonstram as gravações dos telefonemas.
Pirlo, que aparece nos grampos que foram feitos com autorização da Justiça, foi o segundo preso transferido a pedido da PF nos últimos dias. Embora tenha iniciado anteriormente, a Operação Dictum se tornou pública em 03 de abril, quando mais de 150 agentes federais, cumpriram mandados de prisão e de busca e apreensão em Fraiburgo (SC) e nas cidades paranaenses de São Mateus do Sul, Londrina, Foz do Iguaçu, Santa Helena, Cascavel e Toledo. Na ocasião, o serviço de inteligência identificou como estava estruturado o tráfico de drogas e suas atividades correlatas (apurou-se, inclusive, que somente na cidade de Cascavel, a comercialização de entorpecentes chegava a movimentar aproximadamente R$ 12 mil por dia).
Semanas depois, no dia 20 de abril, agentes da Polícia Federal retornaram à cidade de Toledo e também estiveram na vizinha Tupãssi, na capital paulista e em Santo André. Dessa vez, rastreando as finanças do narcotráfico, agentes da PF, em conjunto com membros do GAECO (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) descobriram que os recursos advindos do laboratório que refinava cocaína em uma chácara localizada em Santo André, estavam sendo utilizados para comprar propriedades rurais em Toledo e em Tupãssi, como forma de lavar o dinheiro da organização. De acordo com as escutas divulgadas na última quarta-feira, os ‘‘gerente’’ do PCC faziam planos para dominar todos os pontos de vendas de drogas da região, na gíria chamados de ‘‘biqueiras’’. Um dos áudios disponibilizados pelo Dr. Marco Smith revela que o Primeiro Comando dividiu o Paraná em 280 ‘‘regionais’’ e pretendia abastecer todos esses pontos com drogas populares, como maconha, cocaína e crack, e com outras que não são encontradas com tanta facilidade, como ecstasy e oxy. Os áudios mostram também que, como as ações da polícia vêm dificultando suas operações criminosas, o grupo planejava roubar bancos em cidades pequenas do interior.
Ao acompanhar os desdobramentos das ações policiais no combate à facção, percebemos que ela vem crescendo, se diversificando e se ramificando ao longo dos anos, a ponto de chegar sem chamar a atenção e despertar suspeitas, em cidades tranqüilas do interior. O PCC surgiu nos presídios, mas ultrapassou suas muralhas e atua onde menos se espera, inclusive na pacata zona rural de Toledo.
Fernando Baldi Braga, jornalista e ex-agente penitenciário
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