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Cientistas desenvolvem protocolo para testar resistência de couros de peixes

| 30/04/2019 - 16:27

Pesquisa deve elaborar o primeiro protocolo para avaliar resistência do couro de peixe. Crédito Laur

Pesquisa desenvolvida pela Embrapa Pecuária Sudeste(SP) deve impulsionar no País um valioso mercado em franco crescimento no mundo, o de produtos feitos com couro de peixe. O pesquisador Manuel Antônio Chagas Jacinto está avaliando a resistência desses materiais à tração e ao rasgamento, informações fundamentais à indústria manufatureira de couros não convencionais.
O objetivo é estabelecer um protocolo para os testes de qualidade do couro de peixe feitos em laboratório. Para isso, ele compara duas metodologias para análise das peles: uma com cortes inclinados e outra com cortes transversais e longitudinais. O diferencial do estudo é que as amostras estão sendo retiradas de tilápias grandes, de aproximadamente 3,5 quilos, com superfície maior para que seja possível recortar amostras repetidas, reduzindo as chances de erro.
Os estudos estão em fase adiantada e fazem parte do projeto “Ações estruturantes e inovação para o fortalecimento das cadeias produtivas da aquicultura no Brasil” (BRS Aqua), iniciado no ano passado, que envolve mais de 20 centros de pesquisa da Embrapa, cerca de 270 empregados da Empresa e recursos financeiros da ordem de R$ 57 milhões. São cerca de R$ 45 milhões do Fundo Tecnológico do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES/Funtec), R$ 6 milhões da Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca (que estão sendo executados pelo CNPq) e contrapartida de R$ 6 milhões da própria Embrapa.
Subsidiando normas internacionais
O protocolo que o pesquisador deve adotar deverá ajudar a compor normas internacionais para retirada de amostras de animais não mamíferos para pesquisas. Hoje existem padrões para a coleta de peles de mamíferos, mas não há metodologia específica para coleta de amostras de peles de aves, répteis, anfíbios e peixes.
Couro de peixe é valioso no mercado de moda
Produtos confeccionados a partir de couro de peixe, de avestruz e de répteis abastecem um nicho de mercado bastante exigente. “Nicho envolve a questão de moda, que vai e vem. Moda sempre volta”, comenta Manuel Jacinto. Segundo ele, no caso de peles convencionais, esse fluxo é perene e mais dinâmico porque, de um ano para o outro, as feiras internacionais ditam as tendências.
No caso das peças feitas a partir de couros de bovinos, caprinos, ovinos e até suínos, os fabricantes adequam, sugerem acabamentos e cores diferentes, inovam nas estampas. “Já as peles de nicho, nas quais o couro de peixe se insere, vão e voltam com mais ou menos força dependendo do ano. Elas são produzidas sempre, tipo underground, e depois a procura dá um boom, em seguida volta ao estado anterior, mas nunca acaba”, garante.
Nina Braga é diretora do Instituto E, uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) que atua na criação e gestão de uma rede voltada ao desenvolvimento humano sustentável. Segundo ela, a organização desenvolve projetos como o e-fabrics, que identifica matérias-primas sustentáveis que possam ser utilizadas pela indústria têxtil e pela cadeia produtiva da moda, estimulando a cultura de consumo consciente. O projeto promove estudos de impactos socioambientais no processo produtivo, a preservação da diversidade e das relações sociais com comunidades, criando produtos com design.
Entre 2000 e 2006, o projeto foi incubado pela Osklen, uma das maiores fabricantes de peças de couros não convencionais do mercado mundial. Em 2007, o e-fabrics foi lançado na Piracuru no foco.
“O mercado de couro de peixes está se expandindo. Hermès e Armani estão produzindo. A Osklen, que é pioneira nesse processo no mundo, aposta muito nesse nicho”, afirma. Nina conta que o mercado se interessa bastante quando descobre o conceito de sustentabilidade por trás das peles.
“Quando ficam sabendo que é desmatamento zero, que aumenta a renda dos ribeirinhos, que o peixe é fonte de proteína para essas comunidades amazônicas e que a pele seria descartada, eles querem o pirarucu”, relata ela, ressaltando a tendência de crescimento do mercado desse couro.
“Se uma bolsa Chanel custa US$ 5.000, o consumidor consciente prefere pagar US$ 1.500 em uma bolsa de pirarucu que tem um conteúdo socioambiental mais rico”, avalia.
Em novembro de 2018, Gisele Bündchen desembarcou no Brasil com uma bolsa feita de couro de peixe de R$ 3,9 mil. O custo alto é explicado pela logística complicada. Segundo a diretora do Instituto E, o material sai refrigerado de Jutaí, no Alto Solimões, para uma viagem de 26 horas em lancha rápida. Depois é transportado por cinco dias em caminhões com câmera fria. “E ainda fazemos questão de remunerar bem os ribeirinhos”, explica.
Mercado promissor para couro de tilápia
Salvador Ricciardi Júnior é proprietário do curtume Rana Peles, em Guaxupé (MG). Ele conta que o auge do couro de tilápia foi entre 2010 e 2013, quando havia uma fábrica especializada em produtos de couro de peixe e búfalo em Goiânia. O empreendimento fechou em 2014. De lá para cá, os fabricantes têm preferido couros de peixes maiores, como o pirarucu. “O problema da tilápia é o couro pequeno, o que exige muito emenda”, conta.
Ainda assim, há procura. Ele tem fornecido couro de tilápia para a produção de botas de uma fábrica de calçados em Andradas (MG) e para a produção de bolsas, carteiras e cintos de um fabricante do Braz, em São Paulo. Segundo ele, há fábricas que utilizam essa matéria-prima em nas cidades paulistas de Franca, Barretos e Campinas.
Atualmente Salvador trabalha com tilápia em escala comercial. Ele começou em 1987, quando abriu um criatório de rã, em uma época em que a pele desse animal tinha muito valor. Hoje trabalha com peixe, bucho de boi (retículo bovino), jacaré e avestruz. “Com rã não trabalho mais porque é um mercado muito difícil.” No ramo de peixes, conta que já curtiu pacu e outras espécies. “Compro as tilápias na região. Aqui na represa de Furnas há pescadores e um criatório em gaiolas. Recebo a pele congelada e limpa, sem a carne.”
“Clientes preferem preto, café, tabaco e havana (castanho alaranjado). Às vezes pedem um bordô para fazer algum acabamento”, revela. A qualidade do couro que recebe é boa. “Vem tudo direitinho, classificado. Peço tilápias acima de um quilo. Normalmente os peixes são abatidos com 700g a 800g, que é o peso mais viável para a carne. Para deixar mais tempo, aumenta o custo para o produtor,” explica.
Fonte: Embrapa Pecuária Sudeste
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